Opinião

O apogeu no hoje

O apogeu no hoje

A ligação do Teco me acordou. Ele pedia o texto da semana pra Abertura. Putz, o texto! Esqueci completamente. Do texto e da Abertura. Aliás, o que mesmo é isso, a Abertura? Digitei no google. Ah, sim, um site: abertura.art.br. O site do Teco. Cliquei. No alto da página havia um texto dum tal de Karlan Muniz: “Uma reflexão sobre Richard Wagner e a experiência de marca”. O quê? Li e reli. Saboreei. Texto espetacular. Mas daí me veio a dúvida: do que trata essa Abertura? Música? Publicidade? Mitologia? Fui descendo pela tela inicial do site: entretenimento, cinema, astrologia, meio ambiente… Astrologia? A Cármen também escreve pra Abertura? Ah, claro: a Cármen, o Jojó, a Cecília, o Adão. E eu? Eu escrevo. O Teco disse que sim. Então escrevo. Mas sobre o quê? Porra, esse Alzheimer tá me matando. Posso escrever palavrão na Abertura? Ah, foda-se o Teco!

Verifiquei no site: escrevo sobre futebol. Li alguns dos meus textos. Captei a relação entre os temas. Lembrei do que pensava ao escrevê-los. Lembrei de mim. Lembro muito do que fui quando moço, mas pouco do que tenho sido ultimamente. Alzheimer é uma bosta. Em todo caso, sei que tenho sido o que sempre fui. Notei isso ao ler meus textos. Sempre fui um botafoguense chato. Sigo sendo. Serei até quando o Alzheimer deixar. 

Aí lembrei num estalo: tenho uma lista de temas pros próximos textos. Onde tá a porra da lista? Ah, sim: na gaveta. Peguei a folha escrita à lápis, sentei à mesa, abri uma Brahma. Primeiro tema: “Geraldo Assobiador foi melhor que Cristiano Ronaldo”. Achei bom: fácil de argumentar, ligeiramente picante. Passei pro segundo: “por que os brasileiros estão dominando a Libertadores?”. Algumas boas teses sobre a questão se acenderam em minha mente cheia de esquecimento. Pensei comigo: escrever me faz bem. Se eu não escrevesse, já tinha morrido. Deus salve o Teco!

Gostei mais do terceiro tema: “por que no futebol de hoje há tão poucos gols de falta?” Fala do “futebol de hoje”. Aponta nele uma falha, um dado negativo. Os meninos acham que tudo atualmente é melhor. Acham que os jogadores são mais fortes, mais velozes, mais técnicos. Acham que o jogo evolui sempre, sempre fica melhor, sempre supera o de antes – como uma nova versão do vídeo game. Mas eles têm que lidar com isso: hoje os cobradores de falta são piores. Sei que os meninos, sem um pingo de Alzheimer, não se darão por vencidos. Dirão que hoje os goleiros são melhores; por isso menos gols de falta. Eles sempre têm algo dizer sobre o apogeu do tempo no hoje. 

Então lembrei do Yashin. Lembrei dum jogo entre Brasil e União Soviética no Maracanã. Era um domingo da primavera de sessenta e cinco. Eu tava lá. Eu e o Bob Kennedy: um na geral, outro nas tribunas. Gérson marcou um golaço. De pé direito! Pelé marcou o segundo. Lembro nitidamente daqueles três passou longos, como os de Adhemar Ferreira da Silva, antes do chute. Que golaço fez o Rei! Lembro do empate dos russos num peru do Manga. Lembro sobretudo do Yashin. 

Fui ao Maracanã só pra ver o Aranha Negra. Àquela altura eu já tinha visto Pelé muitas vezes. Queria ver o tal maior goleiro do mundo! E vi. Entendi. Visualizei a dimensão da lenda. Yashin antevia os golpes adversários. Não dava grandes saltos. Não se atirava ao chão. Não sujava o uniforme. Apenas sabia, antes de todos, aonde ia a bola. Genial como um Michelangelo com uma vela na testa. 

Mas, afinal, por que tô falando do Yashin? Ah, sim: por causa dos meninos. Eu respondia ao argumento deles. Ou melhor: não respondia. Não tô nem aí pros meninos. Já passei dos noventa e tenho mais com que me preocupar no pouco tempo que me resta. Eu só queria lembrar daquela tarde no Maracanã. Daquela primavera de sessenta e cinco. Daquele que fui. O tempo é engraçado: ele quer me esconder quem hoje sou, mas insiste em me recordar aqueles todos que fui. Todos sempre o mesmo. Sempre botafoguense. E chato. Todos basicamente isso: eu.

Isso tá se dispersando. Isso tem muitos vazios. Isso já quase não me sustenta. Tá duro ser eu.  Então eu decido: acabou o texto. Cravo na folha um ponto final. Preciso dum título. Sobre o quê eu escrevia? Reli. Lembrei: é pro Teco, é pra Abertura. Escrevi sobre o tempo. O tanto que vivi. O pouco que me resta. O tempo em que hoje flutuo como um astronauta. Alguém disse que tudo o que existe é o hoje. Sei lá, o hoje me parece meio vago. O eu e o tempo têm algo mais entre si. Mas por que tô falando sobre isso? Eu deveria falar sobre futebol, foi o que o Teco me pediu. Pra publicar na Abertura. Chega de falar sobre o tempo, o eu, o Alzheimer. Aliás, o que mesmo é isso, a Abertura?

Serjão Santana

Serjão Santana jogou futebol amador em Itajaí. Fã dos irmãos Rodrigues, abraçou a crônica esportiva. É marcilista e botafoguense.

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